Da fé na Comunicação à comunicação da Fé


Emergindo no espaço agonístico da democracia grega, onde a palavra é "a rainha e a condutora das almas", a retórica aparece, desde os seus inícios, como defesa de causas controversas. Daí concluíram os sofistas, não só pela retórica como um instrumento ao serviço de qualquer causa, como pela relatividade de todas as causas e, consequentemente, pela inexistência da Verdade. É precisamente sobre essa dupla conclusão que, como se sabe, incide a crítica de Platão è sofística.
Quanto ao cristianismo, se o testemunho (martyros)  foi naturalmente a primeira forma de anúncio (kerigma)  da experiência pascal, rapidamente a evangelização no ambiente cultural, filosófico e retórico do helenismo teve de recorrer à linguagem - o grego da koinê e as suas categorias -, já para se universalizar e tornar compreensível aos gentios, já como incoativo espaço de formulação e auto-compreensão, processo que patenteia uma profunda confiança nas virtualidades da comunicação.
Ora, o que se torna problemático, nesta utilização que o cristianismo faz da retórica, é precisamente a ligação que estabelece, na pregação, entre palavra e verdade. Até que ponto é possível compatibilizar a relatividade do instrumento como o carácter absoluto do conteúdo, o meio como a mensagem? Este problema ganha hoje, em plena "sociedade da comunicação", a sua máxima acuidade: com efeito, esta é uma sociedade em que, por um lado, todos os discurso particulares reivindicam o seu direito à existência pública e a sua pretensão de verdade, mas, por outro lado, têm sempre no seu horizonte um desejo de universalização - e de poder - mais ou menos visível.
Pretende-se assim, neste Colóquio, cruzar investigações no âmbito do pensamento antigo e patrístico - ou também apostólico, visto que Paulo de tarso é quem pela primeira vez inscreve o kerigma cristão no espaço da retórica grega, indo falar ao coração do helenismo, o Areopago ateniense - com investigações contemporâneas no âmbito da comunicação, tentando detectar confluências e analogias, mas também disparidades e diversidades entre as abordagens de ambos os domínios de investigação.

Support:
Fundação para a Ciência e a Tecnologia
União Europeia
Quadro de Referência Estratégico Nacional
Programa Operacional Factores de Competitividade
Universidade da Beira Interior