Conferência Internacional aponta caminhos para a publicação científica

A 2ª Conferência Internacional Comunicar Ciência: Modelos de Publicação Emergentes avaliou o estado atual de aspetos como os fatores de impacto e a forma como eles se podem adequar mais a umas áreas cientificas que a outras. 
Como, onde e de que forma devem os investigadores comunicar o resultado do seu trabalho? Esta questão foi uma das principais das que estiveram em análise na Universidade da Beira Interior (UBI), ao longo de dois dias, naquela que foi a “2ª Conferência Internacional Comunicar Ciência: Modelos de Publicação Emergentes”.
Especialistas nacionais e estrangeiros juntaram-se para discutir os atuais paradoxos e encruzilhadas em que se encontra este processo essencial para o ensino e inovação, que está intimamente ligado aos aspetos da avaliação da produtividade dos investigadores – e os reflexos que isso tem no financiamento –, e aos rankings que estabelecem a relevância de pessoas e instituições.
A temática está a ser estudada no âmbito do “Comunicar Ciência”, coordenado pela docente da Faculdade de Artes e Letras (FAL), Anabela Gradim, no seio da unidade de investigação LabCom.IFP. O projeto estabelece uma divisão consensual: a diferença existente entre as Humanidades e as Ciências Naturais.
São áreas com modelos de produção e publicação próprios, mas que estão a ter uma trajetória convergente, como lembrou Anabela Gradim, logo na sessão de abertura da conferência: “O propósito do nosso projeto era refletir sobre diversas perspetivas acerca das questões relacionadas com a publicação académica e do contraste entre as culturas de publicações nas áreas das Ciências e das Ciências Sociais e Humanas. Essas culturas estão hoje numa trajetória convergente, mas têm especificidades. São distintas e já o foram mais no passado”.
Acontece que a avaliação através de impacto com base, por exemplo, no número de citações de um artigo científico é mais adequado ao processo das Ciências do que das Humanidades, como identificou o reitor da UBI, António Fidalgo, na mesma sessão.
João Costa, presidente do Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), e que está a trabalhar na criação de um modelo de monitorização desta área, explicou que a “bibliometria não serve”, ainda que entenda que a avaliação por pares também não seja sustentável.
“A avaliação de impacto é um problema que tem de ser discutido”, disse, acrescentando que “os outputs científicos em Ciências Sociais e Humanas vão muito para além da publicação”.
Daí que se exija um acordo sobre “como é que se avalia impacto em outputs que não são as publicações, porque é muito fácil nalgumas áreas científicas usar a citação, como medida de impacto, mas nas Humanidades é muito mais complicado. A citação não é a medida mais válida de impacto”.
Apesar das Humanidades terem “jogado o jogo”, como reconhece, João Costa lidera precisamente o trabalho que pretende adotar um processo mais adequado para o sector.
A base é o modelo norueguês “que tem como princípio garantir uma maior cobertura, praticamente real, daquilo que é a produção” e que assenta em três fases, tendo começado com a consulta feita aos investigadores para definir as revistas e editoras mais importantes, para depois classificar o “top 20” e atribuir peso relativo às mesmas.
O responsável aponta as vantagens de um modelo que poderá mesmo ser adotado por outros países: A cobertura dispara. A produção nas Ciências Sociais e Humanas deixa de ser invisível. Subitamente, os investigadores começam a publicar. Deixam de ser esta massa de gente improdutiva. A língua nacional aparece, deixa também de ser invisível. É uma lista que pode ser atualizada periodicamente, ou seja, se aparecerem novas publicações ou desaparecem outras. O modelo pode ser usado alternativamente àqueles que tanto nos penalizam”.
E esta penalização acaba por ter reflexos, porque instituições como as universidades – centros onde fazer ciência é um aspeto fundamental –, estão a ser avaliadas em rankings, formados com base nessas bibliometrias.
O atual responsável da UBI tem a perspetiva de que “hoje em dia as universidades confrontam-se com as métricas”. E António Fidalgo salienta que “de tal maneira é assim, que aquilo que era um meio para averiguar a produção, tornou-se ele próprio um fim”: “Muitas vezes já não temos as métricas para medir aquilo que produzimos, produzimos para obter as métricas que achamos que devemos alcançar e que nos situam nesses rankings”. Fica, pois o alerta, do reitor da Universidade, para esta situação. Não se pode esquecer o essencial, “que é ensinar e investigar”, sublinha.
Mas a pressão de publicar sente-se e é admitida. O investigador e docente da UBI, Ricardo Morais, está a trabalhar na recolha de dados com base num inquérito e entrevistas a investigadores e responsáveis de unidades de investigação. Os dados, ainda preliminares, apontam para esta pressão de publicar acompanhado do reconhecimento de que está a afetar a qualidade da investigação. Durante a primeira mesa da Conferência, avançou que os investigadores ouvidos consideram que os índices usados para medir o impacto científico “estão a afetar desde logo o processo de produção, não só de publicação”; que a lógica de investigar para publicar e a própria pressão que é colocada nos investigadores mais novos, “está a ter consequências muito negativas, desde logo na própria competição que existe entre os investigadores”.
Temas que continuaram a ser debatidos ao longo dos dois dias de trabalho, na última semana – dias 21 e 22 –, juntamente com a questão acesso, nomeadamente o open acess aos artigos científicos que a internet propicia, os problemas decorrentes do aparecimento de editores predatórios que põem em causa a integridade da comunicação científica (de que falou Jeffrey Beall), a manipulação de citações académicas (a cargo de Allen Wilhite), ou as revistas cientificas latinoamericancas (da responsabilidade de António Castillo-Esparcia), entre outros.
O final do primeiro dia da conferência ficou ainda assinalado pela inauguração, na FAL, da exposição/instalação poética “Onde me Criei”, de Pedro Carreira de Jesus, antigo aluno de Ciências da Comunicação da UBI. A obra pode ser vista até 27 de junho.

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