Cinema português realizado por mulheres em análise

“A mulher-cineasta: da arte pela arte a uma estética da diferenciação” foi o tema da tese de doutoramento defendida por Ana Catarina Pereira no dia 30 de junho, na Universidade da Beira Interior.
Um dos objetivos da investigação desenvolvida passou por “perceber se o cinema, enquanto meio de comunicação de uma mensagem, teria aprofundado a histórica divisão dos papéis atribuídos a cada género, sublinhando estereótipos e justificando desigualdades ou se, por outro lado, teria contribuído para uma defesa da igualdade de direitos, não apenas entre os sexos, mas também entre raças, culturas e classes sociais distintas”. Ana Catarina Pereira estudou as principais teorias feministas do cinema iniciadas na década de 70, por autoras como Sharon Smith, Claire Johnston ou Laura Mulvey “que acusaram o cinema clássico de Hollywood da constituição de narrativas exclusivamente dirigidas ao voyerismo masculino”.
Por reconhecer que alguns arquétipos ainda se mantêm, “bem como a maior objetivação do corpo da mulher enquanto personagem, o que perpassa o cinema, a televisão, a publicidade e a generalidade das formas de comunicação”, a investigadora procurou analisar as mulheres por detrás das câmaras testando a hipótese das suas personagens femininas se revestirem de um maior realismo e proximidade às espectadoras, no caso específico do cinema português.
Para Ana Catarina Pereira, “estudar o cinema português realizado por mulheres foi estudar uma dupla invisibilidade: aquela que ultrapassa a consagração de alguns nomes, mas também o antagónico interesse da generalidade do público”. A investigadora constatou que as cineastas portuguesas realizaram 14 por cento das longas-metragens de ficção estreadas comercialmente nas últimas três décadas. Ana Catarina Pereira defende, por isso, medidas de discriminação positiva como a inserção de quotas na cedência de financiamentos e a própria criação de um festival de cinema de mulheres, em Portugal.
A tese de doutoramento apresenta uma análise exaustiva de quatro longas-metragens: Solo de Violino, de Monique Rutler, Daqui p’rá frente, de Catarina Ruivo, Aparelho voador de baixa altitude, de Solveig Nordlund, e Noites de Cláudia Tomaz.
Com a investigação desenvolvida, sob orientação de Tito Cardoso e Cunha, a autora comprovou “a não necessária correspondência de uma autoria feminina a uma obra feminista”, acrescentando-se ainda a dificuldade das realizadoras aceitarem essas mesmas designações. “Para as cineastas em estudo, é prejudicial que a sua arte seja encarada deste ponto de vista, invisibilizando todos os outros traços”, explica. Para Ana Catarina Pereira, “os movimentos feministas não inventaram somente novas estratégias ou novos léxicos, mas mais importante, conceberam um novo sujeito social, as mulheres: não apenas como leitoras, consumidoras e espectadoras de objetos culturais, mas também como escritoras, realizadoras e produtoras desses mesmos objetos culturais”.  
O júri das provas foi constituído por Tito Cardoso e Cunha (Professor Catedrático Aposentado da UBI), Eduardo Augusto Ramos Paz Barroso (Professor Catedrático da Universidade Fernando Pessoa), Anabela Dinis Branco de Oliveira (Professora Auxiliar da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), Teresa Maria Conceição Joaquim (Professora Auxiliar da Universidade Aberta) e Manuela Penafria (Professora Auxiliar da UBI).
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