História e memória
“As Caixas Mudaram o Mundo? Usos femininos dos media no Estado Novo” é o título do mais recente livro organizado por José Ricardo Carvalheiro, editado pela Minerva Coimbra.
A televisão, e antes dela a “telefonia”, fizeram nas décadas do Estado Novo o seu processo de afirmação como consumo popular em Portugal e foi ao longo desse tempo que os modos da sua recepção se foram definindo como novas práticas culturais. As marcas desse processo são hoje ténues em fontes históricas tradicionais, podendo apenas entrever-se em alguns registos documentais.
As muitas zonas de sombra que restam quanto ao longo processo em que a rádio, primeiro, e depois a televisão foram sendo adoptadas no quotidiano podem ser relativamente iluminadas com o contributo da história oral, particularmente com uma abordagem biográfica que apreenda as experiências e perspectivas femininas. Como se articularam as práticas de recepção com outras práticas culturais marcadas pela divisão do mundo entre masculino e feminino? E como participaram elas, ou não, nas transformações que se foram operando nesse mundo?
A ideia de que os novos meios de comunicação têm funcionado historicamente como caixas que mudam o mundo não só é uma visão demasiado simplista acerca da sociedade e dos efeitos da tecnologia sobre ela, como também deixa na sombra aquilo que não muda e, principalmente, aquilo que mudando fica mais ou menos na mesma. Ao trabalhar com memórias femininas acerca da recepção mediática na ditadura, a investigação que deu origem a este livro – o projecto “Media, Recepção e Memória: audiências femininas no Estado Novo” – identificou uma realidade plural, que aponta para práticas e tácticas diversas com os media nos contextos da sociedade portuguesa.






